Cérebros, não balas

Revista Trip

Caro Paulo,

Você sabe que o exército foi e é a referência para a formação da cultura organizacional que temos nas empresas.

A estrutura hierárquica, a disciplina, as metas, os manuais, a carreira, o comando&controle como princípio de gestão, tudo isso veio da primeira organização que existiu entre os homens.

Até as igrejas que já existiam antes das empresas, tiveram sua cultura desenhada a partir da máquina do exército.

O resultado é que mesmo organizações criativas pautadas por valores humanos como a nossa Trip bebeu dessa herança para se estruturar, se gerenciar e atuar no mercado.

Consequentemente, nós como trabalhadores e dirigentes nessas empresas fomos preparados para dar certo nessa cultura. Desde a educação que vem de casa, passando pelas escolas, universidades e MBAs até a integração dos funcionários nas empresas é um processo de preparação de indivíduos obedientes, hábeis e valentes que se colocarão a serviço da corporação que os reconhecerá por meio de promoções ao longo da vida.

Essa educação nos diz que os interesses da organização prevalecem aos dos indivíduos, que é importante vestir a camisa da empresa, que não se deve levar seus problemas pessoais para o serviço e que o manual é tudo o que você precisa saber para cumprir suas obrigações e se dar bem.

Quer dizer, o indivíduo, produzido e manualizado como uma peça de engrenagem, deve se encaixar na estrutura e cumprir ordens sem fazer muitas perguntas.

Mesmo quem nunca esteve dentro de uma dessas estruturas já foi vítima dessa cultura quando ouviu do funcionário da empresa a triste escapada da responsabilidade pessoal: “Desculpe, estou apenas cumprindo ordens.”O mundo mudou. Muito se fala e se escreve sobre a necessidade de mudar o comportamento das empresas e das pessoas. Mas nos últimos tempos nada foi mais significativo e dramático do que a mudança percebida pelo exército.

Por isso achei genial a reportagem sobre as guerras de hoje, que a revista The Economist publicou com o título de “Brains not Bullets” (Cérebros, não balas).A tese é obvia: considerando a velocidade com que o cenário muda atualmente, a vitória da guerra não é do mais forte mas daquele que for mais ágil na atualização da sua estratégia. Isso tem a ver com tecnologia de comunicação.

Eles explicam:

o soldado que está na linha de frente usa um capacete com vários sensores conectados à central da estratégia. Ele é suposto de identificar ameaças e oportunidades e comunicar à central para que esta possa atualizar a estratégia e fazer ajustes em suas táticas.

Isto é, se esse soldado não estiver lá no campo com seu cérebro funcionando em condições de discernir o que é relevante; e dentre o que é relevante, identificar o que é ameaça e o que é oportunidade, a guerra está perdida.A partir desta constatação questiona-se a maneira como um soldado é preparado para trabalhar no exército hoje.

Ele não pode mais ser concebido como uma peça de engrenagem – uma bala ! - que é um artefacto fabricado com a precisão necessária para encaixar numa função e funcionar segundo o manual sem fazer perguntas. A bala, que por definição não tem cérebro, é utilizada pelo cérebro de quem tem o comando da engrenagem na mão. Bang! Vá lá e cumpra as ordens ou as metas.

Hoje, se um soldado não conhece e não aderiu à causa que a guerra serve e se não conhece a estratégia e as metas; ele não tem condições de discernimento para colher informações relevantes e repassar para a corporação. Não pode ser apenas uma bala que cumpre ordens. Tem que ser um cérebro.

E não é apenas um cérebro que processa informações de maneira inteligente como um computador. Mas um cérebro com habilidades críticas, opinativas, intuitivas, capaz de ver contexto e significado nas informações e nos fatos disponibilizados.

O Departamento de Defesa dos EUA escreveu um texto importante sobre essa mudança e deu o título de “Power to the Edge”(Poder para as pontas (?).Não existe alternativa se o objetivo é vencer: power to the edge!Mas dar poder e autonomia para pessoas que são acríticas, não compartilham as mesmas causas, não têm discernimento e só têm habilidade para cumprir metas, pode ser um tiro no pé.

Pode vencer uma batalha aqui outra lá, mas com o tempo perde a guerra.“Brains not bullets”. Finalmente a guerra presta algum serviço a favor da humanização da sociedade, com a vantagem de começar pela redefinição da nossa relação com o trabalho. Brains not bullets!

Que os nossos soldados corporativos adotem esse novo grito de guerra: Brains, not bullets!

Abraço do amigo que vive em pé de guerra com o trabalho que diminui o homem.

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