Identidade é música para os ouvidos do mercado

Valor Econômico, Fevereiro de 2005

“These boys think they know music, but they don´t know life.”

(“Esses garotos acham que conhecem música, mas eles não conhecem a vida.”) Howlin’ Wolf, bluesman americano

Identidade e imaginação. Segundo Antonio Negri e Michael Hardt, no livro Império (2001), estas são as duas maiores crises de nossa época. De um lado, uma sociedade em profunda transição que dificulta o conhecimento e a clareza sobre a identidade (de indivíduos e organizações). De outro, sem compreender a natureza da ordem social e diante de um poder externo que, à primeira vista, parece tão esmagador, perdemos a capacidade de imaginar o futuro e, consequentemente, de atuar sobre nossa realidade atual.

Uma das principais origens destas crises é a falta de referenciais externos diante de um ambiente que muda de maneira desordenada e acelerada, o que traz o risco de que a compreensão do cenário se torne cada vez mais circunstancial e superficial.

Assim, onde podem estar os referenciais que sirvam como fonte de inspiração e, no caso das organizações, de inovação radical? Continuamos olhando para fora, ou buscamos internamente novas lentes para enxergar o nosso cenário?

Uma metáfora interessante para explorar esta questão é a arte, mais especificamente a música.

Em uma recente viagem musical pela trilha do Blues nos EUA, passando por Nova Orleans, Memphis, Chicago e Nova York, salta aos olhos a força que um movimento gera quando parte de algo essencial e ligado à identidade e, também, quando este mesmo movimento pode perder seu impulso quando se desvincula de suas origens.

O Blues americano surgiu a partir da necessidade de expressão e manifestação dos negros americanos, combinando o ritmo africano e a harmonia dos hinos religiosos de origem européia. Não se pode precisar uma data ou uma pessoa responsável pela origem do Blues. Ele simplesmente explodiu em um determinado momento no final do século XIX, através de pessoas que sequer sabiam ler uma partitura. Era o que se pode chamar de “uma expressão direta da alma”.

Para um povo que havia (apenas aparentemente) perdido seus vínculos com o passado, sofria enormes preconceitos no presente e tinha poucas perspectivas de futuro, qual deveria ser o referencial? Será que ele poderia vir de fora, de algum líder carismático, de algum governo ou instituição? Pouco provável. O caminho para o nascimento de uma expressão artística tão original só poderia vir de dentro. Daí toda a radicalidade desta “inovação” espontânea e não planejada.

Como disse o poeta Jean Cocteau, o Blues se tornou a única contribuição autêntica e importante dos EUA à música deste século. Outros ainda o classificam como a única expressão artística original produzida pelos Estados Unidos. De sua força original surgiram os acordes que deram fundamento e inspiração ao Jazz e, um pouco mais tarde, geraram seu filhote de maior sucesso comercial, o Rock & Roll.

Mas na distância entre os pequenos clubes esfumaçados e sujos do Delta do Mississipi até as grandes gravadoras e teatros de Nova York, alguma coisa se perdeu. Afinal de contas, uma indústria enorme havia sido criada a partir daqueles músicos simples e talentosos. Parece que a inspiração deixou de vir de dentro, e os referenciais passaram a tentar acompanhar apenas “o que o ouvinte queria”. Para se ter uma idéia, o Blues foi chamado de Folk por algum tempo no final dos anos 60 porque os executivos entendiam que assim venderia mais. Não é à toa que o departamento de marketing passou a ser o centro nervoso das principais gravadoras.

Não havia mais tempo para simplesmente esperar que surgissem artistas que falassem com o coração, que criassem algo realmente novo e original. Era preciso sustentar o volume de vendas, seja com uma banda “fabricada” ou com relações promíscuas com a mídia. O lema: se o povo quer, nós gravamos; se não quer, nós empurramos. Era o mercado ditando sozinho o ritmo e a crise do setor fonográfico dando sua partida.

Esta trajetória ilustra de forma extremamente sintética apenas a criação de uma indústria a partir das visões individuais de alguns artistas primários, assim como diversas outras foram criadas a partir da visão de empreendedores que, de forma mais profunda e original, foram ao âmago de movimentos e demandas sociais que, à primeira vista, não estavam claras para ninguém – e nem poderiam ser captados por qualquer pesquisa de mercado.

Mas ela mostra também como a essência colocada em segundo plano e o distanciamento do propósito original, aliados a um cenário mutante que torna efêmeros os referenciais externos, é a receita fatal que compromete a perenidade de qualquer organização.

Identidade e imaginação. Identidade é a visão e o propósito que move uma organização, imaginação é a crítica sobre o futuro. Pode ter certeza que mesmo sem verbalizar claramente, o mercado também espera isso das empresas.

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