O futuro será em beta

Valor Econômico, 18/10/04

Outro dia, jantando com um banqueiro americano, ele me provocou perguntando como diferenciar marca de banco. Seu tom me dizia que ele já sabia a resposta. Como eu percebi que era de fato uma provocação, respondi que era muito difícil; uma forma de pedir que elaborasse mais a questão. Ele foi em frente:“Todos os gestores trabalham com informação com a intenção de minimizar risco.Como todos os sistemas produzem as mesmas informações e as intenções também são as mesmas, as decisões são iguais!”

Eu concordei. E acrescentei que, na minha opinião, esse não é o problema apenas da categoria banco. É o problema de toda empresa que se baseia apenas em informação para tomar decisão. De fato, na Sociedade do Conhecimento, informação é commodity, portanto ter a informação não faz a diferença. A diferença está em quanta informação você precisa para entender todo o cenário. Porque se o seu concorrente precisa de 20% de informação sobre um cenário para decidir e você precisa de apenas 5%, sua decisão pode sair antes; e isso pode diferenciar sua marca.

Antes que ele me interrompesse, eu continuei.É uma diferença no tempo, é verdade, porque a concorrência pode vir atrás. Mas se você adota essa postura como estratégia, sua marca estará sempre apontando a direção do mercado. Com uma garantia: se você aponta a direção quer dizer que você tem uma visão crítica do mundo, do mercado, do negócio e competência para entregar melhor que a concorrência, que se vier atrás, terá que copiar; e vai copiar mal, porque não tem a visão.

Em português claro, estamos falando da empresa que adota inovação como estratégia. E da importância da visão, e não apenas da informação, para diminuir o risco da inovação. E citei como exemplo o Banco Real ABN AMRO com seu posicionamento de promover o desenvolvimento sustentável.

Ele entendeu o meu ponto e daí em diante começamos a falar de gente que tem visão crítica, de liderança, de sensibilidade, de coragem. A conversa animou e já no fim do jantar, o assunto era como uma marca inovadora, principalmente no setor de serviços, podia sustentar uma relação com o cliente sem cometer erros na fase de aprendizagem que toda inovação requer, se de fato for inovadora. Para essa questão eu tinha uma resposta favorita que aprendi no fim do século XX, lendo uma edição da revista Wired sobre o cenário para o século XXI: “The future is in beta.”

Para quem não é íntimo do Vale do Silício eu explico: Beta é a versão teste de um software que é lançada para se corrigir eventuais defeitos antes de seu lançamento definitivo ao mercado. Como entre o teste e o lançamento definitivo você inovou e já tem nova versão beta para lançar, cancela-se o lançamento definitivo da versão anterior, e lança-se a nova versão beta. Isto é, viveremos em beta, que na prática significa viver com defeitos! E aí é necessário fazer um novo contrato com o seu cliente porque, se antes, na Sociedade Industrial, defeito era sinal de incompetência, de negligência, de falta de controle de qualidade; defeito agora é sinal de compromisso de inovação, de aperfeiçoamento, de busca de melhor performance, menor custo, maior conveniência, enfim, de qualidade!

“Que contrato é esse?” , ele manifestou sua sincera curiosidade, impacientemente.Um contrato que não se baseia apenas em especificações técnicas mas em visão, valores e objetivos compartilhados, um contrato mais maduro que suporta os erros e os acidentes de percurso que todo processo de inovação verdadeira pressupõe. De novo, a visão como fator de diminuição de risco.Um cliente com quem se faz esse contrato é parte vital do processo de inovação, é aliado, te garante feedback, redução de custo e de time to market porque você já está no mercado.

Já era hora do cafezinho, eu achava que ele tinha me acompanhado mas seu pensamento forjado no rigor, na precisão e na previsibilidade da Sociedade Industrial não se conteve e me cobrou: “Mas e o controle de qualidade?”Eu respondi, convidando: “ Que tal considerar os controles como jogo jogado e começar a olhar para resultados sustentados por relações de qualidade? E ajudar a construir um mercado mais maduro, com mais inspiração, com mais visão e menos risco?”

Não sei se ele concordou com todas as premissas mas ele gostou do convite. E pagou a conta.

Thymus integra estratégia da marca e estratégia de negócios de maneira a provocar o maior impacto no ecossistema de negócios.

contato

Av. Dra Ruth Cardoso, 620 2º andar - jardim europa, são paulo
(Antiga Rua Hungria)
+ 55 11 3039.5875+ 55 11 3039.5876thymus@thymus.com.br
envie um email