Velho: o novo hit da sociedade do conhecimento

Revista da ESPM, Maio/Junho 2005

A Sociedade Industrial supervalorizou o jovem porque seu principal indicador foi a produtividade. Uma produtividade que dependia essencialmente das pessoas que trabalhavam nas máquinas. Queríamos que nossas empresas e departamentos funcionassem tão bem quanto um relógio e somente um jovem teria energia e precisão de movimentos para funcionar como um relógio. Daí, transformamos a juventude, fase da vida em que estamos fisicamente mais aptos, num juízo de valor. Na segunda metade do século passado, jovem virou segmento de mercado. E o que era fator de produção virou referência de consumo e comportamento. “Não confie em ninguém com mais de trinta anos” cantávamos. Jovem passou a ser sinônimo de eficiência, beleza e bem-estar. Grande cilada. O medo de não ser jovem destruiu a possibilidade de sermos felizes depois dos trinta. A insegurança e a auto-estima dos mais velhos entrou em franco declínio. O padrão estava estabelecido. Para ser belo e eficiente tinha de ser jovem.

Eu mesmo, na década de 90, participei da aventura de trazer prestígio à mulher madura no lançamento do anti-sinais, da Natura, utilizando mulheres de 55, 65 na sua propaganda. Nos prétestes de campanha, as consumidoras se revoltavam quando mostrávamos os anúncios, com essas mulheres mais velhas. Elas queriam ver jovens nos anúncios, mesmo sabendo que o produto não reduziria a sua idade. “Isso aí eu tenho no espelho do meu banheiro”,diziam, “essas mulheres são velhas, a propaganda tem que mostrar mulheres jovens, bonitas...” A pressão por ser jovem era tão forte que desvirtuava o discernimento do que era verdade e mentira, uma doença social que nos machucava pessoalmente, física, afetiva, intelectual e espiritualmente. Felizmente, nossa campanha conseguiu encontrar uma estética que mostrava a mulher madura com orgulho de sua idade e acabou dando certo. Acho que estávamos antecipando o questionamento da utilização da juventude como juízo de valor.

Hoje, com a Sociedade do Conhecimento se instalando na velocidade da informática e dos satélites, começo a perceber a urgência de rever esse padrão. Faz sentido. As máquinas estão automatizadas. Informação que era diferencial para um executivo tomar decisões certas e competitivas tornou-se commodity. E com uma agravante: essa mesma tecnologia que capta a informação no cenário e a disponibiliza em tempo real faz com que as pessoas que a recebem tomem decisões que mudam o cenário onde a informação nasceu, tornando-a obsoleta quando chega em sua tela. Isto é, a lei que diz “quem tem informação tem o poder” está revogada nos mercados da Sociedade do Conhecimento. O que vejo hoje é que a competitividade está com quem consegue, com um mínimo de informação, entender o cenário completo e tomar decisões antes de seu concorrente. Em termos práticos, se você precisa de apenas 5% de informação para entender um cenário e tomar uma decisão e o seu concorrente precisa de 20%, você sai na frente e faz a diferença.

Então a nova lei diz: quanto menos informação você precisar para decidir, mais poder você tem. Isto é, a competitividade não está mais apenas na qualidade e na quantidade de informação mas em quem recebe a informação; mais precisamente, na bagagem e no instrumental pessoal e profissional de quem vai usar. Não se trata do eficiente instrumental de análise apenas. Mas da capacidade de acessar contextos maiores, imaginar evoluções e apostar naquilo que não se vê e que ainda não é cientificamente comprovado, como gostávamos de dizer e como nos sentíamos seguros na Sociedade Industrial.

Na Sociedade Industrial, com cenários estáveis, previsíveis e controlados, as máquinas nos davam a informação que levava à decisão. Na Sociedade do Conhecimento, com cenários interdependentes globalizados, mutantes e fora do controle, o ser humano com sua experiência e intuição é que fornece a melhor informação. E se tem alguma coisa que aprendi nesses meus 56 anos é que não são apenas os estudos e as pesquisas que nos dão conhecimento, mas o tempo, o erro, a intimidade com nós mesmos, o mundo e a vida.

Parece ironia que na Sociedade do Conhecimento os livros e as informações sejam relativizadas no seu valor mas essa é a mais cruel verdade. Digo cruel porque essa realidade nos surpreende, velhos e moços, equipados com diplomas e cases de melhores práticas, instrumentalizados por estudos quantificados e indicadores de mercado que não apontam com segurança para nenhum futuro. O máximo que nos dizem é como era a realidade quando o estudo foi feito, isto é, no passado.

Nunca foi tão verdade o aviso que as corretoras de valores e os fundos de investimento são obrigados a estampar em seus anúncios: Performance passada não é garantia de resultados futuros.

Sinal dos tempos modernos: o futuro é incerto. Então como diminuir a incerteza do futuro e vislumbrar um cenário que permita planos que garantam, minimamente, o retorno esperado?

Não tenho uma resposta simples mas posso relatar minha experiência com conselhos de grandes corporações, composto de pessoas de 21 a 88 anos de idade, quando exponho os fundamentos do branding que falam desse mundo menos controlável e mais interdependente. Percebo duas reações, independentemente da idade: os que têm dúvidas e os que têm certezas. É verdade que os muito jovens e os muito velhos são os mais abertos para as dúvidas, talvez porque os mais jovens queiram entender as regras do funcionamento do mundo moderno para jogar certo e ganhar; e os mais velhos porque, não querendo se afastar do mundo corporativo, também querem saber se há alguma novidade que eles precisam aprender.

De qualquer maneira, as maiores resistências vêm dos que estão na média: entre os 30 e os 50, executivos com altos salários que são pagos para saber e não para aprender. Nessa faixa, os que não resistem são os futuros velhos que, com 80 anos, serão bem-vindos para ensinar a perguntar e a aprender o que não sabem.

Infelizmente, a confidencialidade de nossos projetos não me permite citar nomes de octogenários que são os entusiastas de primeiro momento quando falamos da gestão de ativos intangíveis, papo estranho ainda para a maioria dos executivos in charge, com sólida formação nas escolas de sucesso da Sociedade Industrial.

Minha conclusão é que, nessa época de transição e ruptura, o que deixa uma pessoa ultrapassada é a certeza do aprendizado passado e, conseqüentemente, a falta de abertura para as perguntas. Se isso é verdade, são os mais velhos que têm mais chance de dar uma contribuição de valor para a sociedade atual. Primeiro porque, como já falei, o fator tempo é determinante da preciosa experiência. Lembro de um velho médico da família de meus pais, Dr. Alberto, que da sala, ouvindo a tosse de um de nós, vinda lá do quarto, já conseguia fazer o diagnóstico. Lembro também de um velho consultor que me acompanhou em algumas visitas a clientes que, pelo equipamento de telefonia instalado na recepção, conseguia identificar a maioria dos problemas organizacionais e mercadológicos da empresa. Eles tinham muito estudo, muita ciência mas a velocidade deles em acessar um diagnóstico era devida aos anos de janela, como um velho lobo do mar que, com os mínimos detritos trazidos pelas correntezas sabe exatamente onde está.

Segundo, porque o envelhecer desenvolve a humildade no indivíduo ao confrontá-lo com os seus limites físicos. E a humildade é o oposto da arrogância do jovem que acha que pode tudo e que não precisa de ninguém, atitude desastrosa numa sociedade carente da compreensão da interdependência em suas relações. Entrar em contato com nossos limites nos ensina que a almejada independência é sonho juvenil e imaturo, uma visão que caracterizou as políticas internacionais dos países na Sociedade Industrial e que hoje dá lugar à política de integração dos blocos econômicos por região. Não é por acaso que interdependência é a primeira palavra do discurso de qualquer líder bem intencionado na formação desses blocos econômicos.

Depender dos outros para fazer alguma coisa é humilhante para quem cultivou a independência como um valor maior em sua vida. Por isso, o envelhecer pode dar a um indivíduo a percepção do espírito de nossa época. E por isso também o velho começa a ser chamado pela sociedade para ocupar um lugar importante na elaboração de seus planos de futuro e nas suas decisões.

E finalmente, em terceiro lugar, a propósito de planos para o futuro, o envelhecer nos amplia a percepção do tempo presente nos tornando capazes de considerar simultaneamente muito mais variáveis em uma só decisão.

Para uma criança, a noção do tempo presente é já; não tem antes nem depois. Para um jovem, o tempo presente não vai além da próxima balada, isto é, três dias. Não adianta dar três meses para um jovem fazer seu trabalho porque ele vai fazer três dias antes. Três meses é ficção científica para ele. Para um jovem solteiro assalariado, o tempo presente é o tempo do salário. Para um casal com filhos, o tempo presente é o orçamento anual que tem de dar conta de todas as despesas da família. Para um avô como eu, o tempo presente é de gerações. Meu bem-estar e minhas considerações para decidir qualquer coisa na minha vida começam com minha mãe, que, já viúva, está com oitenta anos, e terminam com o meu neto Joaquim, passando por minha mulher e por meus filhos, seus projetos e seus amores. Essa ampliação do tempo presente, essa capacidade de lidar com maior complexidade de variáveis, sobre as quais você tem cada vez menos controle, vem com a maturidade. Exatamente a maturidade que se espera de um executivo com responsabilidades de tomar decisões que impactam os resultados futuros da companhia num cenário de extrema complexidade composto por variáveis pouco controláveis.

Maturidade talvez seja a palavra que melhor sintetize e defina a carência de nossa época e a virtude esperada de qualquer pessoa, não importa a sua idade, em posição de decidir alguma coisa. Se a lei da natureza está valendo, nós, os mais velhos, estamos bem na foto. Afinal, o indicador da sociedade do conhecimento, além de produtividade e rentabilidade, é a sustentabilidade desses resultados.

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