Vítimas ou campeões da incerteza?

A incerteza quanto ao futuro talvez seja a única unanimidade entre os diversos analistas de cenário, de esquerda e direita, do mais otimista ao mais pessimista.

Esta certeza da incerteza nos diz que perdemos a intimidade com as atuais dinâmicas da sociedade e do mercado e, consequentemente, perdemos também o controle das suas variáveis.

Isto é, o mundo está funcionando de um jeito que não conhecemos.

Segundo os meus registros, foi em 2008 que o mundo reconheceu oficialmente sua ignorância quanto às novas dinâmicas da sociedade, quando o G20 se reuniu em Washington para fazer um diagnóstico da crise e concluiu que era – “Mau dimensionamento dos riscos”.

Para mim, mau dimensionamento de riscos significa que estamos mal informados sobre a realidade na qual atuamos. Ou não sabemos como o sistema funciona ou, embora conhecedores do sistema, não sabemos a quantas ele anda. Parece que o G20 se referia a ambos os casos.

Este diagnóstico só confirmou a resposta que Alain Greenspan deu semanas antes para o jornalista que cobrou do todo poderoso e bem informado presidente do Federal Reserve Bank:- “Por que o senhor não fez nada?” ao que o humildemente exasperado Greenspan respondeu:- “Como eu podia fazer alguma coisa?! Eu não tinha ideia do que estava acontecendo!”Confesso que fiquei aliviado quando li a resposta do Greenspan e mais satisfeito ainda quando conheci o diagnóstico do G20 porque, como dizia meu avô, “reconhecer a ignorância é o primeiro passo para a sabedoria”.Sim, um novo mundo estava emergindo e era desconhecido da gestão que fez sucesso no previsível século XX.

A incerteza veio para ficar.

Para quem acompanha e festeja a evolução da Sociedade Industrial para a Sociedade do Conhecimento, o diagnóstico do G20 não foi novidade. Porque uma das alterações que a tecnologia de informação e comunicação faz com sua velocíssima e cada vez mais acessível conectividade, é evidenciar a sensibilidade biológica do tecido social, fazendo com que suas dinâmicas sejam muito mais semelhantes às dos sistemas vivos e menos parecidas com o lento, mecânico e controlável mundo antes do celular e da internet. Saímos da estável sociedade vertical piramidal para entrar na “caótica” e horizontal sociedade em rede, rica em emergências.

A melhor compreensão deste processo nos diz que a incerteza não é fruto apenas de uma momentânea perda de controle mas uma característica da nova sociedade que está se instalando.

O filósofo e economista Eduardo Giannetti da Fonseca explicou a crise não como consequência de um fato novo mas como o simples “aumento da interdependência e complexidade já existentes”.

Com seu brilho didático de sempre, em poucas palavras Giannetti nos passou a lição de casa. Ou aprendemos a lidar com as crescentes interdependência e a complexidade que são características dos sistemas vivos ou não sobreviveremos.

Acho prudente colocar o desafio nos termos de evolução darwiniana porque não precisamos da adaptabilidade apenas para passar pela crise mas como competência definitiva para fazer da incerteza dos novos tempos um fator de sucesso e não uma ameaça.

Daí a oportuníssima recomendação da FNQ para se tratar a empresa como “sistema vivo integrante de ecossistema complexo com o qual interage e do qual depende”. Porque essas serão as empresas campeãs da incerteza porque saberão utilizar a interação permanente com o seu ecossistema para aprender e influenciar, tirando partido de sua ágil adaptação ao ambiente imprevisto.

Vítimas serão as empresas-máquinas que se gerenciam como sistemas fechados, hierárquicos e fragmentados, apoiados no maior controle e comando sobre as variáveis para fazer sua escolhas estratégicas e gestão. Essas não terão “time to market” na velocidade necessária para evoluir e serão extintas pelo ambiente.

Mais ciência, por favor.

O maior desafio para fazer a passagem do estágio da empresa-máquina para empresa-sistema vivo não está na organização mas na cabeça de quem vive a organização.

Porque a empresa-máquina, por sua lentidão e simplicidade dá muito espaço para o jogo político e para a manipulação, favorecendo gestão e pessoas que nem sempre primam pela eficiência de sua operação e satisfação de seus relacionamentos. Quem está no poder dessas organizações sabe lidar com esses aspectos do mundo corporativo do século XX e, de certa forma, se sente seguro e confortável com eles. Por isso se sentem muito ameaçados com o advento da empresa-sistema vivo revelando dificuldade para compreender o novo fenômeno e habilidade para sabotar sua instalação.

A empresa que evolui para funcionar como um sistema vivo vai desenvolver uma complexidade e uma velocidade que lhe deem a necessária adaptabilidade ao imprevisto e incerto. Reverá o design de sua estrutura, de seus contratos, suas interfaces e relações internas e externas. Funcionará segundo os princípios da biologia que regem a organização e o funcionamento dos surpreendentes, plásticos e criativos sistemas vivos.

Os sistemas vivos pedem mais ciência na sua gestão sob o risco de desequilíbrios graves e doenças fatais. Com menos espaço para política e egos, os sistemas vivos pedem mais ciência e pragmatismo na sua gestão, como na natureza. Um pragmatismo científico, eu diria.

Por exemplo, a eficiência das soluções da natureza é total, não existe lixo nem desperdício porque a integração dos elementos e dos sistemas é absoluta.

Outro exemplo, muitos dos valores morais e crenças que eram tidos como opção do ser e do conviver civilizado, na natureza é imperativo de sobrevivência. Como aprendemos na recente descoberta que foi a Cooperação entre tribos e indivíduos de tribos que garantiu melhor condição de aprendizado sobre mudanças no ambiente, permitindo a adaptação e evolução da espécie. O que não aconteceu com as tribos onde a competição, mais do que a cooperação, definia o tom das relações. O que determinava o comportamento mais cooperativo das tribos que sobreviveram era a presença significativa de oxitocina no seu organismo, um hormônio que predispõe o indivíduo a colaborar e criar vínculos. (para saber mais veja livros recentes sobre neurociência. Um bom ponto de partida é “The Science of Good and Evil”, de Michael Shermer.)

Ironicamente, a ciência e a tecnologia, que um dia foram vistas como desumanizadoras da sociedade, vêm mostrar que as leis da selva são mais civilizadoras do que nossa arrogante ignorância do século XX imaginava.A incerteza não vem para nos fazer vítimas. Vem para subir o sarrafo da competência dos humanos para tornar suas empresas mais sistemas vivos e menos máquinas e nos fazer mais humanos e menos peças de engrenagem.Pode crer. A incerteza veio para nos melhorar e valorizar o humano.Quem viver verá.

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